Agora, no meio da
tarde, sem mais nem menos, um amigo me “cutuca” no Facebook, com o link de um
vídeo de uma cantora lírica, feito por outro amigo em comum. Como é um vídeo
que foge da minha “área de atuação e conhecimento de causa”, rolou primeiro um certo
estranhamento, seguido por uma maravilhosa quebra de... clima? Expectativa? Na
verdade, a magia da música me puxou o tapete outra vez. Eu poderia estar
escutando o novo do Van Halen, The Shins, Miike Snow ou qualquer outro que
preciso e/ou quero ouvir. E, provavelmente, nenhum deles se encaixaria melhor
nessa tarde cinzenta, iniciando o outono, com vontade de chover em BH. Esse é
mais um fato que me faz relembrar que há bem pouco tempo eu estive muito próximo
de perder o prazer de escutar música pop, quer dizer, música em geral. Verdade!
É que trabalhar com aquilo que você realmente curte tem um preço. Por anos e
anos seguidos, um preço mais alto ainda. É o prazer versus obrigação/rotina. E, ultimamente, sem aquela vontade insaciável de outros tempos,
em que não queria perder nenhum disco interessante saindo do forno, tenho
respeitado mais e mais o silêncio.
Percorro, no
mínimo 50km/dia(ida e volta), entre minha casa e o local onde trabalho. Há dez
anos, seriam 50km de música rolando, diariamente, sem parar. Hoje, quase sempre
acompanhado por minha mulher e filha, e muitas vezes com minha filha dormindo,
deixo o silêncio comandar o som do carro. E, nesse silêncio, muita música pode
vir à cabeça e, de repente, rola até uma vontade de escutar essa ou aquela
canção, quando chegar em casa. Graças ao silêncio. É que ele me permite não só
lembrar de certas músicas, como também deixa um espaço aberto pra que eu tome
as rédeas do que meu pensamento quer organizar, priorizar. Ao invés de eu ser
simplesmente guiado por qualquer que fosse a música tocando, pois, caso ela
estivesse tocando sem minha atenção, certamente já teria se transformado em um
ruído, pano de fundo, muito pior que a clareza do silêncio. E aí incluo
algo bem particular. Nunca consegui ouvir música, estudando ou fazendo
qualquer outra coisa. Minto. Sou dos piores dançarinos do mundo, mas já me
diverti dançando desengonçadamente várias músicas. E, talvez, até num caso
assim, o fato da música estar ocupando o primeiro plano em meu cérebro, faça
com que qualquer movimento meu (em segundo) saia completamente “torto”. E olha que conheço gente que não consegue sincronizar as palmas do "Parabéns pra você", com a melodia. Isso é outra coisa. Mas como falei em ritmo, como pude aprender a tocar bateria, então? Simples. Quando toco bateria, não
estou ouvindo a música de fora, entro na música. Faço parte dela. Voltando às situações mais comuns, até em um churrasco, bar, foram muitos os momentos quase altistas, em que me
peguei vagando totalmente fora da conversa, e num mergulho quase sem volta pra
dentro de um solo, ou um detalhe qualquer de uma música (nesse ponto, nada
ambiente). Já irritei amigos, parentes, antigas namoradas, minha mulher e até
minha filha de apenas 2 anos por esse motivo. A música, quando me pega de
jeito, me tira de cena. Não preciso de drogas pra alcançar isso, o que nos
altos dos meus 40 anos, é um alívio, além de preservação dos neurônios
restantes. Ah, e do silêncio!
Dias atrás,
sozinho do lado de fora da minha casa, apenas com os sons da natureza ao redor - um latido ou outro de cão ao longe, uns grilos fazendo
sua cantoria a diferentes distâncias e mais alguns outros - intervalos de silêncio
me convidaram a ouvir o novo disco do Leonard Cohen. Foi difícil abrir mão
daqueles poucos ruídos naturais e extremamente harmônicos. Pior ainda abrir mão
daquele confortável e acalentador silêncio, mas a causa era nobre. Após buscar
um pequeno som portátil, conectado ao meu telefone celular, Old Ideas começou a tocar, após uma
breve sessão de Al Green. Dei uma chance ao novo disco do Paul McCartney
também, mas o silêncio voltou a falar mais alto e só concordou com uma nova
dose de Come Healing do Cohen. Vozes
femininas, um arranjo maravilhosamente simples de teclado, quebrados pela
rouquidão (celestial?) de Leonard Cohen. Aliás, essa música, uma das mais belas
do disco, e seu arranjo são fenomenais por valorizarem advinha o que? Se eu
fosse produzir qualquer filme bíblico ou não, em que Deus estivesse no roteiro,
convidaria o cantor pra fazer a voz do todo poderoso. Desde que tudo terminasse
num divino silêncio. Fui dormir, maravilhado com Leonard Cohen e,
por causa dele e do silêncio, em paz com a música.

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