terça-feira, 20 de março de 2012

Entre Leonard Cohen e o silêncio


Agora, no meio da tarde, sem mais nem menos, um amigo me “cutuca” no Facebook, com o link de um vídeo de uma cantora lírica, feito por outro amigo em comum. Como é um vídeo que foge da minha “área de atuação e conhecimento de causa”, rolou primeiro um certo estranhamento, seguido por uma maravilhosa quebra de... clima? Expectativa? Na verdade, a magia da música me puxou o tapete outra vez. Eu poderia estar escutando o novo do Van Halen, The Shins, Miike Snow ou qualquer outro que preciso e/ou quero ouvir. E, provavelmente, nenhum deles se encaixaria melhor nessa tarde cinzenta, iniciando o outono, com vontade de chover em BH. Esse é mais um fato que me faz relembrar que há bem pouco tempo eu estive muito próximo de perder o prazer de escutar música pop, quer dizer, música em geral. Verdade! É que trabalhar com aquilo que você realmente curte tem um preço. Por anos e anos seguidos, um preço mais alto ainda. É o prazer versus obrigação/rotina. E, ultimamente, sem  aquela vontade insaciável de outros tempos, em que não queria perder nenhum disco interessante saindo do forno, tenho respeitado mais e mais o silêncio.

Percorro, no mínimo 50km/dia(ida e volta), entre minha casa e o local onde trabalho. Há dez anos, seriam 50km de música rolando, diariamente, sem parar. Hoje, quase sempre acompanhado por minha mulher e filha, e muitas vezes com minha filha dormindo, deixo o silêncio comandar o som do carro. E, nesse silêncio, muita música pode vir à cabeça e, de repente, rola até uma vontade de escutar essa ou aquela canção, quando chegar em casa. Graças ao silêncio. É que ele me permite não só lembrar de certas músicas, como também deixa um espaço aberto pra que eu tome as rédeas do que meu pensamento quer organizar, priorizar. Ao invés de eu ser simplesmente guiado por qualquer que fosse a música tocando, pois, caso ela estivesse tocando sem minha atenção, certamente já teria se transformado em um ruído, pano de fundo, muito pior que a clareza do silêncio. E aí incluo algo bem particular. Nunca consegui ouvir música, estudando ou fazendo qualquer outra coisa. Minto. Sou dos piores dançarinos do mundo, mas já me diverti dançando desengonçadamente várias músicas. E, talvez, até num caso assim, o fato da música estar ocupando o primeiro plano em meu cérebro, faça com que qualquer movimento meu (em segundo) saia completamente “torto”. E olha que conheço gente que não consegue sincronizar as palmas do "Parabéns pra você", com a melodia. Isso é outra coisa. Mas como falei em ritmo, como pude aprender a tocar bateria, então? Simples. Quando toco bateria, não estou ouvindo a música de fora, entro na música. Faço parte dela. Voltando às situações mais comuns, até em um churrasco, bar, foram muitos os momentos quase altistas, em que me peguei vagando totalmente fora da conversa, e num mergulho quase sem volta pra dentro de um solo, ou um detalhe qualquer de uma música (nesse ponto, nada ambiente). Já irritei amigos, parentes, antigas namoradas, minha mulher e até minha filha de apenas 2 anos por esse motivo. A música, quando me pega de jeito, me tira de cena. Não preciso de drogas pra alcançar isso, o que nos altos dos meus 40 anos, é um alívio, além de preservação dos neurônios restantes. Ah, e do silêncio!

Dias atrás, sozinho do lado de fora da minha casa, apenas com os sons da natureza ao redor -  um latido ou outro de cão ao longe, uns grilos fazendo sua cantoria a diferentes distâncias e mais alguns outros - intervalos de silêncio me convidaram a ouvir o novo disco do Leonard Cohen. Foi difícil abrir mão daqueles poucos ruídos naturais e extremamente harmônicos. Pior ainda abrir mão daquele confortável e acalentador silêncio, mas a causa era nobre. Após buscar um pequeno som portátil, conectado ao meu telefone celular, Old Ideas começou a tocar, após uma breve sessão de Al Green. Dei uma chance ao novo disco do Paul McCartney também, mas o silêncio voltou a falar mais alto e só concordou com uma nova dose de Come Healing do Cohen. Vozes femininas, um arranjo maravilhosamente simples de teclado, quebrados pela rouquidão (celestial?) de Leonard Cohen. Aliás, essa música, uma das mais belas do disco, e seu arranjo são fenomenais por valorizarem advinha o que? Se eu fosse produzir qualquer filme bíblico ou não, em que Deus estivesse no roteiro, convidaria o cantor pra fazer a voz do todo poderoso. Desde que tudo terminasse num divino silêncio. Fui dormir, maravilhado com Leonard Cohen e, por causa dele e do silêncio, em paz com a música.

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